segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Suas flores

Passados alguns dias, Laura, tida por todos como inquieta, começou a se perguntar: Por que é que as coisas acabam? Por que elas vão embora? O que faz com que tudo de repente acabe?

Ganhara um pequeno e simples vaso com flores de sua avó por seu oitavo aniversário. A frase que ouvira dizia que aquelas plantas, singelas e bonitas, precisavam de cuidado: Água uma vez ao dia, e sol pela manhã. Laura nunca foi muito cuidadosa, mas notara no gesto de sua avó uma confiança que geralmente não recebia, e viu também nas flores uma beleza digna de seu cuidado.

Ao longo dos dias seguintes, com afinco e gosto, Laura aguava a plantinha e a colocava na janela sob o sol da manhã. Ao chegar da escola a retirava da janela a depositava na sombra. Ao longo do dia, por várias vezes procurava atenta nas flores sinais de crescimento, de vitalidade, de mais beleza. Notava, porém, com tristeza, que seus cuidados não contribuíam para nenhuma mudança.

Quatro ou cinco dias depois, passou a notar que suas flores não apenas não cresciam ou estavam estagnadas, definhavam. Correu até a casa de sua avó e a perguntou o que ocorria então com as flores das quais acreditava estar a cuidar tão bem.

Sua avó também não soube dizer. Ela disse o que imaginava saber. Laura saiu insatisfeita pois esperava da avó alguma informação decisiva, e de volta para casa nada colocava as flores no caminho do êxito da vida e da beleza.

Motivada, Laura foi em busca de informações e de formas de tratar das flores como nunca fizera com outra coisa em sua tão curta vida. Encontrou diversas dicas. Seguiu algumas, negligenciou outras. A verdade foi que percebeu que todo mundo tinha alguma informação, que havia várias teorias e ideais sobre tudo, e que todo mundo tinha palpites sobre o que nem sabia. O que ela buscava ninguém tinha: certeza. Ela queria saber como salvar suas flores, mas tudo o que tinha era sua vontade e algumas dicas vazias e confusas e várias tentativas frustradas.

Suas flores não conseguiram viver por pouco mais que uma semana. Laura então recebeu recompensas por seus surpreendentes esforços. Sua avó lhe deu um novo vaso com flores e desta vez até sua mãe e um tio contribuíram para seu agora “pequeno jardim”. De início Laura relutou em aceitar as novas plantas. Se perguntava sobre o fim das coisas, sobre a morte, sobre a partida, sobre as impossibilidades e sobre a dor das perdas. Acreditava não estar disposta a cuidar de mais nada. Para quê? E se entristecia com as pessoas pois estas não haviam conseguido lhe dar as respostas que a fariam salvar suas flores.

As plantas ficaram um pouco de lado. Havia dias em que ela aguava, outros que não. Havia dias em que se lembrava de colocar no sol e outros que as esquecia por mais tempo do que deveriam sob o sol ficar. Aos poucos, porém, percebeu que mesmo descuidada, algumas flores perduravam e nasciam, e que mesmo rejeitando, ignorando e inclusive fazendo nada, brotavam alguns brotinhos, e novos ramos, e folhas bem verdes e flores vermelhas, rosas e azuis. Isto não a fez se tornar desleixada, a fez prestar atenção no tempo de cada flor, nas peculiaridades de cada broto, a perceber diferenças nas terras, nos vasos. Não entendeu nada de imediato. Demorou algum tempo para compreender poucas coisas e claro, viu algumas outras flores morrerem.

Após alguns anos, Laura identificou e quis como caminho ser florista. Se tornou conhecida por seu olhar apurado sobre a individualidade de cada flor. Cuidadosa e comedida, Laura só se torna efusiva quando para dizer admirada sobre como as plantas silenciosas sabem mais sobre pessoas do que as pessoas dizem saber sobre toda a vida.