Foi mais um aviso. São muito belos os presentes e as flores que deixaste na minha porta, e também os sorrisos que teceu a mim. Fiquei agradecido mas os remeti de volta ao endereço de origem. Não que não desejasse receber flores e presentes. Não que sorrisos não sejam bem vindos.
Eu estou avisando aos poucos para que cessem estes gestos de mártir, de herói. Eu estou pedindo que pare de agir como se tudo quanto fosse feito para o outro terminasse sempre na exaltação de si. O trabalho do dia, a força de superar os não fazeres, e os obstáculos que a alma impõe como dores, limitações, fragilidades, estes eu quero guardá-los. Não venha tentar tampar a parte que sangra em mim, e nem ouse apontá-las com dedos críticos. Flores e sorrisos só serão bem vindos se partirem de dentro do meu abrigo, do calor ao delírio, só quero aquilo de onde me couber inteiro.
A beleza do fazer às vezes é tão vazia, que prefiro as flores caídas do outono às da primavera, e digo que prefiro ainda os rostos pálidos do inverno aos sorrisos verdes, rosas e azuis cintilantes do verão. A alma é cheia de buracos, de encostas, de desníveis, de quedas. E é bonito mesmo quem vê a beleza destas coisas também, quem põe a mão no esterco antes de pegar nas flores com as mesmas mãos.
“L’essenza dell’amore è ‘lavorare per qualcosa’, ‘far crescere
qualcosa’, […] amore e lavoro sono inseparabili. Si ama ciò per cui si
lavora, e si lavora per ciò che si ama” E. Fromm