quarta-feira, 18 de março de 2015

Onde fica o centro da margem

Da boca de um jovem baiano eu ouvia aquelas palavras sendo ditas como uma espécie de mantra pessoal "calma, coragem". De início, aquelas repetições, que eram ditas sempre ao final de afirmações agudas sobre pessoas e suas humanidades, me causavam certa angústia curiosa. Me mantinha alerta e atento então.

Na medida em que ouvia a precisão plantada sobre um chão firme de humildade, aquelas palavras repetidas que esboçavam um incomodo, me acordaram para a minha própria humanidade.

Ele falava sobre a vida com uma profundidade acaçapante. Falava com a força de quem vivia, viveu e quiçá vive aqueles desafios humanos de homem negro e pobre da maior favela - a primeira - de Salvador. Alguém que carrega as dores e as feridas de ter na história as marcas da dureza e da superação. Para além das sabedoria, das conquistas e do exemplo, a simplicidade de ser ao falar de algo extremamente complexo anexo ao reconhecer-se tão pequeno e limitado diante de tanta grandeza que ousava descrever. Era um baita susto de encanto para mim.

Eu, de fora, admirava a precisão e inteireza daquela pessoa. Uma riqueza de detalhes para descrever um povo e o cuidado diante de uma história de vida triste que se repete e desafios culturais. Em meio a tudo os respiros em encontros, os passos dados, os desafios e ameaças, as indagações, as tantas lutas e pequenas conquistas diárias. Tudo dito transpassava do vivido e ampliado por "calma, coragem".

Uma adrenalina me tomava sob a forma de impulso ao que vale a pena. Eu seria simplista demais ao dizer da realidade que o ouvi dizer, pois saindo dele havia uma força que eu acredito sequer ter alcançado a dimensão total. Parece algo distante por serem posições tão grandiosas afirmadas nas maiores simplicidades da vida. Mas por dizer da vida, por ser tão humano faz-se impossível não sair tocado.

Calma e coragem, que vigor tem estas sábias palavras que popularmente tem sido tantas vezes colocadas em pólos opostos. Conjunto sábio de palavras que munidas do desejo de ir além podem alcançar uma precisão sábia. Mantra rico por fazer parte de uma experiência de sentido para aquele rapaz, e que coloca em perspectiva tudo aquilo que está tão nas margens da sociedade quanto no centro de nós.