terça-feira, 31 de março de 2015

Par de sapatos voadores

Eu sinto que a realidade invadiu meu quarto. Daqui da minha cama sempre foi muito bom imaginar as coisas me acontecendo. As fantasias e os sonhos são universos extremamente instigantes e se realizam em si mesmos, dão alento e forma a uma paisagem muitas vezes insossa e sem perspectivas.

Mas a realidade é bruta e deixa às vistas o que é claridade e o que é escuridão, desde a infinitude até as vísceras. Os voos nas fantasias e nos sonhos permanecem como refúgios de saúde, de respiro, mas é na realidade, fulminante em sua proposta, que se encontra o universo vivo das coisas.

Hoje eu vi o seu sapato jogado no meu quarto. Um claro sinal da realidade. Você tem estado aqui, tem se feito presente mesmo quando tem que, contra nossa vontade, sair. É impressionante como seu senso objetivo e prático torna o mundo um lugar habitável para mim. Eu sou pensante demais. Meu mundo imaginário já me levou a lugares fascinantes e me possibilitou grande parde do que sou, gratidão. Admirado eu fico porém com este jeito de colocar as coisas em seu devido lugar, de partir do mundo físico, de se organizar, de investir de modo consciente e preciso, de tomar decisões e ir em busca, e especialmente de ver que deste modo é possível se realizar sem perder a vida, sem se entregar às mundanidades.

É muito real o nosso encontro. É tão real quanto seu sapato jogado em meu quarto, o altar sagrado da minha imaginação. É impressionante que fisicamente estivemos sempre muito próximos. O que são noventa quilômetros?  O que são alguns metros? Mas a gente foi feito muito diferentes. Você tem uma raiz dinâmica, construtora, decidida e eficaz. Eu tenho uma forma pausada, reflexiva, difusa e ética-moralista. As figuras do baralho porém se misturaram de uma forma em que nosso par resultou em uma jogada que, por mais que pudesse não ter dado, deu certo.  

Acho, e sempre achei, que Deus cuida da gente é nas mínimas coisas da vida. No momento em que a vida me convidou a sair do meu quarto, do meu mundo habitado por seres e realizações fantasiosas, você surgiu de bem perto e emergiu como companhia inesperada me mostrando que, na verdade, eu não precisava sair do meu quarto, do meu mundo, só precisava torná-lo mais próximo do real. E assim tenho pisado na Terra sem deixar de voar. E o engraçado é que você tem percebido também o quanto voar é legal. Eu sonhava com companhia, eu apenas imaginava, vejo agora que ser real torna tudo muito melhor.

Eu hoje vejo o que é dividir, e como nunca, anseio à soma. São muitos devaneios com os quais eu flutuo. Eu ainda fecho a porta do meu quarto e vou longe, voo longe. Mas quando eu faço isso, eu faço olhando seus sapatos. Na minha imaginação eles são a ponta do real. Com eles eu crio aeronaves com as quais voamos, e vamos, juntos, para qualquer lugar.