sexta-feira, 10 de abril de 2015

Tratado da loucura

Não se trata de loucura, disse ela. 

Não era uma afirmação banal de quem quer e ousa tratar de forma aleatória as proposições e propostas de seus próximos. Era um brado e pedido de justiça. As pessoas não costumam ter paciência com ela, pois a julgam estranha, diferente. Que tem demais em ser assim? O sorriso dela é lindo. Seu cabelo desgrenhado tem um charme europeu, sua magreza e palidez combinados com uma inesperada fala grossa, forte. Mas não a veem bonita. Não tem charme algum seu andar, seu denominado "descuido" com a aparência, com as normas de convivência.

Ela saiu para correr no parque de sua cidade, uma pessoa a abordou.

-Ei, menina, não está com frio? Não está apropriado usar estas vestes neste tempo. Quer meu agasalho?

Ela suspirou e seguiu sua corrida matinal. Não se trata de uma ausência de cuidado e educação. Provavelmente esta pessoa tinha boas intenções, talvez até não. Mas ela não precisava de ajuda, estava bem. Ela não precisava que a falassem nada, estava ótima. Não era agasalho a sua necessidade, mas sim que a deixassem seguir seu fluxo de ser na vida.

Ela não se incomodara tanto com este evento simples, mas a questão é que este era um dentre tantos outros que relatava uma série do que me permito chamar de incompreensões. Ela ser exatamente como era, era incômodo demais. O que fazer? Ela não tinha o que mudar, mas se via ligeiramente mudando a cada movimento que a fazia sair de seu habitat natural. 

Especialistas e supostos sabidos iriam dizer a ela que isto era positivo, afinal temos que sair de nossos casulos, conviver com os diferentes, desenvolver novos repertórios. Palmas. Ela sabia disso tudo de caso vivido em vida bem viva. A mesa sempre virava, e ela, cada vez mais abafada, perdia suas grandes valias.

Em seu canto, as pessoas passavam a lhe questionar então:

-Não vai mais correr no frio com roupas curtas? E aquela sua ideia sobre arte contemporânea? Desistiu de viver de dança? Dentre outras.

A ironia de surgir estímulos exatamente de onde era cortado. Um cinismo tamanho vindo de uma sutileza que com pouca atenção soaria até cuidado.

Ela está sofrendo agora. Soube que ficou por algumas semanas sem sair de casa. Preocupados, seus familiares a internaram, não sem claro um alarde de todos aqueles que ao redor sempre estiveram a cortar as asas de quem ousava ser diferente, não por mérito, mas por simplesmente ser.

E deixando de ser, foi ela ao hospital ser si mesma em uma cela. Está lendo livros de arte, como sempre fazia. Está dando aulas de dança para suas companheiras, como gostaria, e corre no pátio do hospital com roupas curtas. Ao visitá-la pude ver que estava novamente bela: Cabelos desgrenhados, magra, delicada e com a voz forte que esmera.

Eu disse: 

- Que bom te ver feliz e novamente bela.

- Não se trata de loucura

Disse ela.