Eu quis bater palmas para tudo isto que você faz, mas eu simplesmente não pude. É contra minha ética, é contra o fluxo sob o qual concebo a vida. Hoje não bato palmas para você pois não é verdade o que fazes, é uma furada, minha cara, e o pior não é se enganar, é não ser humilde, é não abaixar a cabeça para ouvir a si a partir da falibilidade, característica suprema de ser humano.
Ouça bem esta voz que sai de você, pois ela sai com força, eu sei. Ela sempre sai. Não há nada mais belo do que este silêncio profundo que comunica a verdade. Afirmar com afinco estas belas palavras e agir com gestos aparentemente ricos mas empobrecidos de valor não vai fazer-te grande, não perante a mim. Eu espero, agindo assim, que todos os dias, ao me ver, ouça-se. E se sentir-se mal, tudo bem. Se quer saber, te ver triste me faz triste também. Mas estar assim é bom. Que aprenda algo, que aprendamos devo dizer. Eu poderia repetir a minha vida inteira que sou difícil, pois esta é uma grande verdade, mas se eu dissesse isto hoje para você seria uma grande justificativa para atirar. Suas armas estão sempre ao punho. Porquê não as abaixa? Do que se defende? É preciso mesmo estar sempre tão bela, tão bem apresentável? É preciso ser uma princesa para ser desejável? O que tens mais então se perdes esta pueril e passageira corporeidade? O que te restaria seriam só as armas as quais nem conseguiria carregar pois até a força lhe será tirada um dia.
Sim, eu perderei tudo também. Eu me entristeço já hoje ao pensar que um dia enfim perderei a capacidade de escrever, e hoje peco pelo excesso na escrita pois sei que a falta sempre exerce seu ofício. Me diga pois o que lhe falta, mas sem levantar a voz, por favor, sem ataques desta vez. Porque não diz de tu com simplicidade e cuidado e não pergunta pois também de mim? Já ouviste falar de "tu"? É claro. Este tu, armada que está, irás dizer que é tudo do que tem cuidado. Tem? Eu coloco em xeque com a minha presença, todos os dias. Não tem.
Perguntaste uma só vez como estou? Não me esqueço, apesar de que muito gostaria, do dia em que me viu chorando copiosamente e sequer deu-se ao trabalho de mover-se de sua confortável posição no sofá com o computador ao colo. Em seu rosto percebia uma espera ansiosa para que eu saísse dali para que desse sequência à conversa de seu interesse com a outra pessoa em cena, que não vem ao caso.
Bem vinda de volta ao lar. Está feliz como eu? Não. Estamos infelizes moribundos. Estamos travando uma guerra sem fim para fugir de nossa realidade assombrosa que é a de estarmos juntos. Nada que seja feito à força será verdadeiro, ainda que exista. A tônica de duas vidas que convivem sem com-viver. E eu gostaria de pedir-te encarecidamente que ouça a si. O que diz esta voz interior em você. Se eu pudesse ouvi-la, quem me dera, hoje meu rancor seria compaixão. Prever isso, infelizmente não me deixa em paz. A voz é sua e é preciso que você dê voz a ela. Humildade eu repito. Ser difícil não é tão negativo. Rilke dizia que temos de nos aferrar ao que é difícil, e concordo, é daí que sai o caldo da vida. Ser fácil demais é permanecer em um lugar raso, insensível, pouco humano.
Dê a sua mão, mas sem armas. Não precisará assim dos meus aplausos, quão pequenos estes barulhos externos se tornarão. Com paz poderá olhar para o meu rosto se fores inteira, sem máscaras, humilde como tudo que somos quando reconhecemo-nos nada. Dê a sua mão, mas nunca sem entregar a sua alma.
*Sandra é nome de origem grega que significa mulher que ajuda a humanidade, protetora do que é humano.