domingo, 3 de maio de 2015

Arte

Foste me dizer tão bela
qual é a verdade profunda dos homens,
que a cantarolar me pus
no dia da morte de meu velho.
Que boa é a vida!
Na penumbra ela me permite olhar de novo
e ver que tudo aquilo que um dia visto
com os olhos bem abertos,
com eles fechados
não se apaga,
cresce às vistas.
Mas ora, como somos tolos,
a dor é tão boa a nós.
A saudade é só a memória
pedindo para não ser esquecida,
e a memória nada mais é do que a vida
revestida de valor,
no presente revivida.
Eu bem sei que toda esta tolice
será assim um dia injustamente descrita.
Em um tempo difícil
a verdade profunda dos homens
andará tão vazia.
Mas haverá quem contrapor
na simplicidade completa do existir.
A coragem de ser diferente
é chamada "fazer arte" na escola.
É um risco epistolar,
mas um sinal de glória.
Haverá alguém sempre a
cantarolar em meio à monotonia,
a pestanejar em choro memorando a alegria.
Imagino só ao ver-me
a fazer uma afronta como esta:
Chamar de arte
uma breve epifania.